tragedias

Rock and roll

Gênero musical

7 min01/01/2024
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O rock and roll não nasceu de uma única música, de um único artista ou de um único momento. Foi um processo lento e gradual de fusão de culturas, ritmos e histórias que confluíram nas décadas de 1940 e 1950 nos Estados Unidos, resultando num gênero que revolucionou não apenas a música, mas os costumes, a moda, os comportamentos e a linguagem de toda uma geração. As raízes mergulham fundo: no blues elétrico desenvolvido em Memphis, Nova Orleans e Texas, no gospel das igrejas negras do Sul, no country das planícies rurais, no boogie woogie tocado ao piano, no jazz de Nova Orleans e no jump blues que anunciava o que estava por vir.

Antes que o rock and roll tivesse nome, seus elementos já circulavam por gravações de country da década de 1910 e blues dos anos 1920. A separação racial da indústria musical americana empurrava a música negra para categorias chamadas de race music, raramente ouvidas pelo público branco majoritário. Poucos músicos negros de rhythm and blues alcançavam sucesso mais amplo, entre eles Louis Jordan, The Mills Brothers e The Ink Spots. O gênero western swing da década de 1930, geralmente executado por músicos brancos, também absorveu fortemente o blues e influenciou de forma direta o rockabilly e o rock and roll, como se ouve claramente em canções como Jailhouse Rock, de Elvis Presley, gravada em 1957.

Sister Rosetta Tharpe, cantora gospel e guitarrista que já atuava na década de 1920, é considerada a "madrinha do rock". Sua habilidade na guitarra elétrica e sua capacidade de misturar o fervor espiritual do gospel com ritmos dançantes influenciaram diretamente artistas como Elvis Presley, B. B. King, Bob Dylan e Chuck Berry. Em 1944, Tharpe gravou "Strange Things Happening Everyday", um dos candidatos mais sérios ao título de primeiro disco de rock and roll. A lista de concorrentes ao posto inclui ainda "Rock Awhile" de Goree Carter, gravada em 1949, "Rock the Joint" de Jimmy Preston do mesmo ano, e "Rocket 88" de Jackie Brenston, gravada nos estúdios Sun Records de Sam Phillips em março de 1951. "Rock Around the Clock" de Bill Haley, gravada em abril de 1954, só se tornou sucesso comercial no ano seguinte, mas é amplamente reconhecida como um marco cultural de alcance global.

A questão da nomenclatura do gênero tem sua própria história. A palavra "rock" carregava no inglês uma longa tradição metafórica ligada à ideia de agitar ou perturbar. Em 1937, Chick Webb e Ella Fitzgerald gravaram uma canção com o verso "satisfy my soul with the rock and roll". O termo "rocking" era usado por cantores gospel negros para descrever algo próximo ao êxtase espiritual, enquanto na década de 1940 a expressão passou a carregar um duplo sentido, referindo-se aparentemente à dança mas com conotação sexual, como em "Good Rocking Tonight" de Roy Brown. O verbo "roll", por sua vez, era uma metáfora medieval para o ato sexual, usada em expressões que escritores empregavam há séculos. A junção dos dois termos no contexto musical consagrou uma expressão carregada de energia e ambiguidade deliberada.

Rastreando a linhagem ainda mais longe no tempo, historiadores musicais apontam o distrito de Five Points, em Manhattan, em meados do século XIX, como um dos berços da fusão que culminaria no rock and roll. Ali, as danças africanas de ritmo intenso encontraram as melodias de gêneros europeus, especialmente os de origem irlandesa, gerando uma mistura cultural que ecoaria por mais de um século. O próprio Alan Freed, o disc-jockey que popularizou o termo rock and roll em sentido musical nos anos 1950, definiu o gênero em 1956 no filme Rock, Rock, Rock como "um rio musical que absorveu muitos riachos: rhythm and blues, jazz, ragtime, canções de cowboy, country e folk."

A guitarra elétrica tornou-se o instrumento símbolo do rock and roll, presente em todas as formações, às vezes com um único guitarrista, às vezes com dois em funções distintas de base e solo. Além da guitarra, a formação clássica incluía contrabaixo, que depois de 1950 evoluiu para o baixo elétrico, e bateria. Nos primórdios do gênero, o piano e o saxofone eram instrumentos centrais, mas foram sendo gradualmente substituídos ou suplementados pela guitarra a partir da metade dos anos 1950. A batida essencial era um blues com country, com o contratempo acentuado quase sempre marcado pela caixa-clara.

O impacto do rock and roll extrapolou rapidamente as fronteiras da música. O sucesso comercial estrondoso de Elvis Presley a partir de 1956 transformou o gênero num eixo central da indústria musical americana, dissolvendo as antigas categorias baseadas em raça, nacionalidade e religião. O rock and roll aparecia nos filmes, na televisão e nas páginas dos jornais, influenciando estilos de vida inteiros, criando novos vocabulários para os jovens, redefinindo a moda e desafiando as normas comportamentais de uma geração que crescia na prosperidade do pós-guerra americano.

Em meados da década de 1960, o rock and roll havia se expandido para um estilo mais abrangente e internacionalizado, conhecido simplesmente como rock. Bandas britânicas como os Beatles e os Rolling Stones reabsorveram as influências americanas e as devolveram ao mundo em forma nova, num fenômeno conhecido como British Invasion. O gênero continuou a se ramificar em dezenas de subgêneros ao longo das décadas seguintes, do hard rock ao punk, do heavy metal ao indie, mas a semente plantada por Sister Rosetta Tharpe, por Chuck Berry e por tantos outros músicos que experimentaram nas margens da indústria fonográfica americana permanece viva em cada compasso que faz um ouvinte querer mover o corpo.

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