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Revolução Russa de 1917

Revolução na Rússia que levou à abolição da monarquia e à criação da União Soviética

4 min01/01/2024
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O início do século XX encontrou o vasto Império Russo numa contradição profunda: era ao mesmo tempo uma potência continental com mais de 171 milhões de habitantes e uma sociedade travada por estruturas medievais. Cerca de 80% da população era rural, a maioria analfabeta, e os servos libertos décadas antes continuavam amarrados à terra por dívidas e pela ausência de qualquer perspectiva real de mobilidade social. Enquanto isso, nas cidades que despontavam como centros industriais — Moscou, São Petersburgo, Odessa, Kiev — cerca de 3 milhões de operários trabalhavam entre 12 e 16 horas diárias em condições insalubres, por salários de miséria. O contraste com a opulência da aristocracia era visível e insuportável.

O período que antecedeu 1917 foi moldado por três czares cujas políticas semelharam remendos numa roupa já em farrapos. Alexandre II tentou modernizar o país com reformas como a abolição da servidão em 1861, beneficiando cerca de 40 milhões de camponeses, e o estímulo ao ensino universitário — o número de estudantes cresceu de 5 mil para 69 mil entre 1860 e 1914. Mesmo assim, foi assassinado em 1881 por um grupo revolucionário chamado Pervomartovtsky, que via nas reformas insuficientes uma traição. Seu sucessor, Alexandre III, reagiu endurecendo o regime: concedeu poderes extensos à polícia secreta Okhrana, reprimiu partidos e imprensa, e sufocou qualquer dissidência. Morreu em 1894 deixando um país mais controlado e mais ressentido.

Coube a Nicolau II herdar o trono e a crise. Seu governo buscou atrair capitais estrangeiros — da França, Alemanha, Inglaterra e Bélgica — para acelerar a industrialização, e de fato a Rússia avançou em ferrovias, siderurgia e exportação de petróleo. Mas o crescimento econômico só aprofundou as contradições sociais: criou uma classe operária concentrada nas grandes cidades, exposta às ideias socialistas que circulavam na Europa, sem direitos políticos e sem representação. O número de jornais diários saltara de 13 para 856 entre 1860 e 1914, sinal de que a consciência política fermentava mesmo sob censura.

Em 1905, uma manifestação pacífica de trabalhadores diante do Palácio de Inverno foi metralhada pela guarda czarista — o episódio ficou conhecido como Domingo Sangrento. O massacre despertou greves, motins e revoltas em todo o país, forçando Nicolau II a convocar uma assembleia legislativa, a Duma. Mas o czar logo esvaziou seus poderes, e a situação voltou a se deteriorar. Quando a Rússia entrou na Primeira Guerra Mundial em 1914, o colapso social já era questão de tempo: derrotas humilhantes no front, desabastecimento nas cidades, mais de 1 milhão de soldados mortos ou prisioneiros apenas nos primeiros meses de combate.

A Revolução de Fevereiro eclodiu em março de 1917 pelo calendário ocidental — na Rússia ainda vigorava o calendário juliano, com 13 dias de atraso. O gatilho foi uma greve de mulheres em fábricas de pão de São Petersburgo, que se transformou numa onda de protestos de centenas de milhares de pessoas. Os regimentos militares chamados para dispersar os manifestantes se recusaram a atirar e passaram para o lado do povo. Em poucos dias, o regime czarista desmoronou. Nicolau II abdicou em 15 de março, encerrando três séculos da dinastia Romanov. No lugar da monarquia, estabeleceu-se um Governo Provisório de tendência liberal, que cometeu o erro fatal de manter a Rússia na guerra impopular.

Esse vácuo de legitimidade foi o terreno em que os bolcheviques, liderados por Vladimir Lênin, plantaram sua revolução. Lênin retornou do exílio na Suíça em abril de 1917 num trem blindado facilitado pelos alemães, interessados em desestabilizar o adversário russo. Suas Teses de Abril foram radicais e claras: paz imediata, terra para os camponeses, poder para os sovietes — conselhos de operários e soldados que haviam brotado espontaneamente por todo o país. O slogan "Paz, Terra e Pão" capturou em três palavras o que milhões queriam e o Governo Provisório se recusava a dar.

A Revolução de Outubro, deflagrada em novembro pelo calendário ocidental, foi uma tomada de poder precisa e quase cirúrgica. Na noite de 25 de outubro do calendário russo, forças leais aos bolcheviques tomaram as estações de trem, os bancos, as centrais de telégrafo e os pontos estratégicos de Petrogrado. O cruzador Aurora disparou um salvo de advertência que foi o sinal para o assalto ao Palácio de Inverno, sede do Governo Provisório. O governo foi deposto com surpreendente pouca resistência. Leon Trotski, chefe do soviete de Petrogrado, coordenou a operação com a precisão de um planejamento militar.

Mas a tomada do poder foi apenas o início da violência. Uma guerra civil brutal se estendeu de 1918 a 1922, opondo o Exército Vermelho bolchevique ao Exército Branco — uma coalizão de monarquistas, liberais, nacionalistas e forças interventoras de países como Reino Unido, França, Japão e Estados Unidos. Os bolcheviques saíram vitoriosos graças à disciplina organizacional, ao controle das cidades e das ferrovias e à capacidade de Trotski de forjar um exército de massas em tempo record. A família imperial, incluindo Nicolau II, sua esposa e cinco filhos, foi executada em julho de 1918 numa casa em Ecaterimburgo.

Da guerra civil emergiu a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, oficialmente proclamada em dezembro de 1922. Era o primeiro Estado socialista da história, fundado sobre a teoria marxista-leninista de que o partido seria a vanguarda do proletariado. Na prática, o novo regime rapidamente centralizou o poder, reprimiu partidos rivais — incluindo outros socialistas — e instituiu um aparato de controle que seus fundadores teriam reconhecido com vergonha como herdeiro da própria Okhrana czarista.

O impacto global da Revolução Russa foi imenso e duradouro. Inspirou movimentos comunistas em todos os continentes, moldou a política europeia entre guerras, determinou alianças e conflitos da Guerra Fria e deixou sua marca em revoluções do México à China, de Cuba ao Vietnã. A União Soviética durou até dezembro de 1991, quando se fragmentou em 15 repúblicas independentes — um arco de 74 anos que começou nas filas do pão de São Petersburgo e terminou com a dissolução pacífica daquilo que a guerra e o sangue haviam construído. O debate sobre o que a Revolução foi, poderia ter sido e por que se tornou o que se tornou permanece vivo entre historiadores de todas as tendências.

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