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Propaganda Dois

Propaganda Due, Propaganda Dois ou P2, era uma loja maçônica operando sob a jurisdição do

7 min01/01/2024
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A história da Propaganda Due começa muito antes dos escândalos que a tornariam infame. A loja maçônica foi fundada em 1877 em Turim, originalmente sob o nome Propaganda Massonica, como espaço para políticos e funcionários públicos italianos que, por razões de discrição profissional, não podiam frequentar as lojas comuns. Seus primeiros membros eram figuras da nobreza piemontesa e do funcionalismo estatal, e a loja funcionou dentro dos marcos da legalidade por décadas. Após a Segunda Guerra Mundial, com a renumeração das lojas pelo Grande Oriente da Itália, passou a se chamar Propaganda Due — nome que ficaria gravado na memória coletiva como sinônimo de conspiração e poder sombrio.

O período mais relevante da P2 começa em 1966, quando Licio Gelli tornou-se membro da maçonaria e, poucos anos depois, assumiu a liderança da loja com o apoio do Grão-Mestre Lino Salvini. A maçonaria italiana havia sido proibida pelo regime fascista de Mussolini, mas renasce no pós-guerra sob incentivo americano, transformando seu tradicional pensamento liberal iluminista num fervoroso anticomunismo. O crescimento da influência da esquerda italiana no final dos anos 1960 provocou profunda inquietação nos meios maçônicos, criando o ambiente propício para a estratégia de Gelli.

Partindo de uma lista de membros inativos que o Grande Oriente lhe confiou, Gelli construiu com habilidade uma rede de contatos que penetrou capilarmente nas instituições do Estado italiano. Em poucos anos, o que havia sido uma loja com pouquíssimos membros ativos se transformou numa organização com mais de mil personalidades em seus quadros. A lista incluía jornalistas, empresários, parlamentares, ministros, magistrados, generais e os chefes dos três serviços secretos italianos. Entre os membros mais notáveis estava Silvio Berlusconi, empresário que naquela época ainda não havia entrado na política, e Victor Emanuel, príncipe de Nápoles e pretendente da Casa de Savoia ao trono italiano.

A P2 operou entre 1976 e 1981 em violação direta do artigo 18 da Constituição italiana, que proíbe associações secretas. Mas suas atividades ilegais tinham raízes ainda mais profundas: o Grande Oriente expulsara Gelli e a loja em 1976, e um tribunal maçônico estabeleceu em 1981 que a dissolução já havia ocorrido de fato em 1974. Apesar disso, Gelli manteve sua rede funcionando e financiou eleições internas do Grande Oriente, demonstrando um poder de penetração que ia além de qualquer fronteira formal.

Os crimes e escândalos associados à P2 formam uma lista que percorre as páginas mais sombrias da história italiana recente. A loja esteve implicada no assassinato do jornalista Mino Pecorelli e do banqueiro Roberto Calvi, encontrado enforcado sob a Ponte Blackfriars em Londres em 1982 — morte que por décadas foi investigada como homicídio disfarçado de suicídio. A organização esteve relacionada ainda ao colapso do Banco Ambrosiano, afiliado ao Banco do Vaticano, um dos maiores escândalos financeiros da Europa no século XX, e às investigações sobre o sequestro e assassinato do líder democrata-cristão Aldo Moro em 1978.

Nas páginas do terrorismo, os tentáculos da P2 chegaram ao massacre de Bolonha, em agosto de 1980, um dos episódios mais sangrentos do terrorismo de direita italiano, e ao atentado ao Italicus Express. A loja também foi conectada à Operação Gladio, a rede de organizações paramilitares da OTAN que operava clandestinamente em países da Europa ocidental durante a Guerra Fria. Alguns historiadores chegaram a levantar a hipótese de que a morte do Papa João Paulo I, Albino Luciani, em setembro de 1978, após apenas 33 dias de pontificado, pudesse ter alguma relação com os interesses da loja, embora tal afirmação nunca tenha sido provada.

A descoberta das atividades da P2 veio por meio de uma investigação aparentemente menor: o Ministério Público apurava o colapso financeiro do banqueiro Michele Sindona e suas conexões com a máfia siciliana. Em março de 1981, agentes policiais vasculharam a residência de Licio Gelli em Arezzo e encontraram uma lista com 962 nomes, revelando a extensão real da infiltração da loja no Estado italiano. O escândalo que se seguiu derrubou o governo do primeiro-ministro Arnaldo Forlani e colocou em xeque décadas de vida política italiana.

Entre os documentos apreendidos, figurava o chamado Piano di Rinascita Democratica, o Plano para o Renascimento Democrático, elaborado por Gelli. O documento propunha uma reconfiguração profunda do Estado italiano: consolidação dos meios de comunicação sob controle favorável, supressão do poder dos sindicatos e reescrita da Constituição, num esboço de engenharia política autoritária disfarçada de reforma institucional.

A atuação da P2 não se limitou às fronteiras italianas. A loja esteve ativa na Suécia, no Uruguai, no Brasil e na Argentina. No caso argentino, a conexão era particularmente densa: o presidente interino Raúl Alberto Lastiri, que ocupou o cargo entre julho e outubro de 1973, era membro da loja, assim como Emilio Massera, integrante da junta militar que governou a Argentina entre 1976 e 1978, e José López Rega, ministro da Previdência Social no governo Perón e fundador da Aliança Anticomunista Argentina, o grupo paramilitar responsável por centenas de assassinatos políticos.

Como consequência direta dos escândalos, o parlamento italiano aprovou em janeiro de 1982 uma lei especial que dissolveu definitivamente a P2 e tornou ilegal qualquer associação secreta com objetivos semelhantes, dando efetividade ao segundo parágrafo do artigo 18 da Constituição. O caso da Propaganda Due ficou na memória da história italiana como símbolo de um Estado dentro do Estado, uma estrutura paralela de poder que por décadas operou nos bastidores da democracia italiana, usando seus tentáculos para moldar decisões judiciais, eleições, políticas de segurança e até escândalos financeiros internacionais.

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