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Programa Apollo

Programa americano de vôos espaciais tripulados

4 min01/01/2024
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Entre os grandes empreendimentos da civilização humana, poucos rivalizam com o Programa Apollo em termos de ousadia, complexidade e impacto sobre o imaginário coletivo. Coordenado pela NASA, a agência espacial dos Estados Unidos, entre 1961 e 1972, o programa tinha um objetivo que parecia impossível apenas décadas antes: colocar seres humanos na superfície da Lua e trazê-los de volta à Terra em segurança. O projeto custou mais de vinte e cinco bilhões de dólares da época, o que equivaleria a aproximadamente cento e sessenta e cinco bilhões de dólares ajustados pela inflação em valores de 2021, tornando-o um dos programas científicos mais caros já realizados por qualquer nação em qualquer era.

O contexto que gerou o Apollo era o da Guerra Fria, a rivalidade geopolítica e ideológica entre os Estados Unidos e a União Soviética que definia os contornos da política internacional na segunda metade do século XX. A corrida espacial era um de seus front mais visíveis: cada conquista no espaço tinha um peso simbólico que transcendia a ciência, funcionando como demonstração da superioridade tecnológica, econômica e, por extensão, sistêmica de um lado ou do outro. Quando os soviéticos lançaram o satélite Sputnik 1 em órbita em 1957, e quando Yuri Gagarin tornou-se o primeiro ser humano a viajar pelo espaço em 1961, a pressão sobre Washington para responder à altura era enorme.

Em um famoso discurso de 25 de maio de 1961, o presidente John F. Kennedy lançou o desafio que definiria a decade: enviar homens à Lua e retorná-los a salvo antes do fim dos anos 1960. A declaração era ao mesmo tempo uma aposta política, uma mobilização nacional e uma visão de longo prazo que exigiria a concentração de recursos humanos e materiais sem precedentes na história do país. Em um discurso na Universidade Rice, Kennedy condensou a filosofia que animava a empresa: "Nós decidimos ir à Lua nesta década e fazer as outras coisas, não porque elas são fáceis, mas porque elas são difíceis".

A tecnologia que tornaria o Apollo possível havia sido, em parte, desenvolvida durante a Segunda Guerra Mundial e na corrida armamentista subsequente. Os computadores digitais usados para cálculos de trajetória e navegação tinham origem nos esforços de guerra, assim como os foguetes que propeliam as naves espaciais descendiam intelectualmente dos mísseis V-2 alemães, cujos engenheiros-chave foram recrutados por ambos os lados após o conflito. O programa Apollo beneficiou-se igualmente dos projetos que o precederam: o Mercury, com naves para um astronauta, e o Gemini, para dois, haviam preparado os engenheiros e os astronautas para os desafios que a missão lunar exigiria.

Para chegar à Lua, a NASA escolheu o método do rendezvous lunar: um módulo pequeno, o Módulo Lunar, separar-se-ia da nave principal na órbita da Lua, pousaria na superfície com dois dos três astronautas e depois retornaria à órbita para se reencontrar com o módulo de comando, que havia permanecido lá com o terceiro tripulante. Essa abordagem era mais eficiente em termos de combustível do que lançar uma nave única da Terra diretamente para a superfície lunar e de volta. O foguete que tornaria tudo isso possível era o Saturno V, uma criação de proporções épicas: cento e dez metros de altura, dois vírgula sete milhões de quilogramas de massa, impulsionado por cinco motores F-1 no primeiro estágio, cada um dos quais sozinho produzia mais empuxo do que todos os motores de um ônibus espacial combinados.

A jornada para o sucesso não foi sem tragédias. O que ficou conhecido como Apollo 1 nunca chegou ao espaço: em 27 de janeiro de 1967, durante um teste em solo, um incêndio rápido e violento dentro da cápsula matou os três astronautas a bordo — Virgil "Gus" Grissom, Edward White e Roger Chaffee. A perda abalou profundamente o programa, forçou uma reavaliação completa dos projetos de segurança e custou aproximadamente dois anos de atraso. Até a Apollo 6, todas as missões foram não tripuladas, servindo para testar equipamentos e procedimentos antes que vidas humanas fossem novamente colocadas em risco.

A Apollo 8, no Natal de 1968, foi a primeira missão tripulada a orbitar a Lua. Seus astronautas enviaram imagens inéditas do solo lunar para a Terra, e uma famosa fotografia da Terra vista da órbita lunar — "Earthrise" — tornou-se uma das imagens mais icônicas do século. Ainda que não tivesse pousado na Lua, a missão demonstrou que a façanha era tecnicamente viável e que a década de Kennedy poderia ser cumprida. As missões Apollo 9 e 10 testaram o módulo lunar em condições próximas das que seriam usadas na aterrissagem final.

Em 20 de julho de 1969, a Apollo 11 chegou à Lua. Neil Armstrong e Buzz Aldrin desceram na superfície enquanto Michael Collins permanecia em órbita. As palavras de Armstrong ao tocar o solo — "é um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a humanidade" — foram transmitidas ao vivo para centenas de milhões de pessoas em todo o planeta, em um dos momentos de audiência mais massivos da história da televisão. A missão cumpriu à letra o desafio que Kennedy havia lançado oito anos antes, ainda que ele mesmo não vivesse para vê-la: assassinado em 1963, o presidente que havia sonhado a empresa não presenciou sua realização.

Nem todas as missões foram tranquilas. A Apollo 13, lançada em abril de 1970, transformou-se em uma epopeia de sobrevivência quando uma explosão em um tanque de oxigênio, provavelmente causada por um curto-circuito, forçou os astronautas a abandonar o módulo de comando e usar o Módulo Lunar como bote salva-vidas improvisado por quatro dias, enquanto a nave fazia o circuito lunar e retornava à Terra usando a gravidade da Lua como impulso. Os astronautas sobreviveram com oxigênio mínimo e temperatura na cabine que caiu a poucos graus acima do zero, em um retorno tenso e espetacular que se tornou, paradoxalmente, um dos momentos mais celebrados do programa.

No total, onze missões tripuladas foram realizadas no âmbito do programa Apollo, e seis delas pousaram com sucesso na Lua. Doze astronautas pisaram no solo lunar, coletaram amostras de rocha, realizaram experimentos científicos, instalaram equipamentos de monitoramento e retornaram em segurança. O programa terminou em dezembro de 1972, com a missão Apollo 17, encerrando a exploração lunar direta. Os motivos foram tanto financeiros — o Congresso havia cortado sistematicamente as verbas da NASA ao longo dos anos anteriores — quanto políticos: a opinião pública americana havia perdido o interesse na exploração lunar após as primeiras aterrissagens terem esgotado o impacto da novidade.

O legado do Apollo é múltiplo e duradouro. Os doze homens que caminharam na Lua e as centenas de milhares de pessoas que trabalharam para tornar isso possível produziram avanços tecnológicos cujas ramificações permearam décadas de inovação em computação, materiais, medicina e comunicações. Mas talvez o legado mais profundo seja de natureza filosófica: pela primeira vez na história de nossa espécie, seres humanos colocaram os pés em outro mundo e olharam de longe para a Terra, uma esfera frágil e azul flutuando no espaço. Essa imagem transformou, de maneira sutil mas persistente, a consciência que a humanidade tem de si mesma e do planeta que habita.

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