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Nicéforo Cumno

Nicéforo Cumno (em grego: Νικηφόρος Χοῦμνος; romaniz.: Nikephóros Choumnos; c. 1250/55 – 1

5 min01/01/2024
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A chamada Renascença Paleóloga foi um dos períodos mais fecundos da cultura bizantina, aquela extraordinária floração das artes e das letras que acompanhou a restauração da dinastia Paleóloga em Constantinopla no século XIII. No centro dessa efervescência intelectual encontrava-se Nicéforo Cumno, estudioso, burocrata e construtor de instituições, cuja trajetória ilumina as tensões entre poder político, rivalidade intelectual e vida monástica que caracterizavam a corte bizantina tardia.

Nascido entre 1250 e 1255, Cumno provinha de uma família que desde o século XI havia fornecido funcionários de alta posição ao Estado imperial. Essa tradição de serviço lhe abriu as portas da educação mais refinada disponível em Constantinopla: estudou retórica e filosofia sob a orientação do futuro Patriarca Gregório de Chipre, que governaria a Igreja de Constantinopla entre 1283 e 1289. A formação foi ao mesmo tempo clássica e pragmática, preparando Cumno tanto para os debates intelectuais da corte quanto para os meandros da burocracia imperial.

Sua estreia nos registros históricos ocorreu por volta de 1275, quando aparece com o cargo de questor, liderando uma missão diplomática junto ao cã ilcânida Abaca Cã. Era uma posição modesta, mas o fato de ter sido escolhido para conduzir negociações com um poderoso governante persa já indicava o reconhecimento de suas capacidades. Nos anos seguintes, Cumno navegou com habilidade pela transição entre os reinados de Miguel VIII Paleólogo e seu filho Andrônico II — uma transição não apenas dinástica, mas religiosa, posto que Miguel havia apoiado a União das Igrejas com Roma, política que o piedoso Andrônico II repudiou categoricamente. Cumno, que havia abraçado a união sob Miguel, não hesitou em abjurar quando o novo imperador deixou clara sua posição ortodoxa.

Por volta de 1285, Cumno demonstrou sua habilidade política ao compor um panegírico em honra do imperador Andrônico II, texto que celebrava não apenas as virtudes do soberano, mas também sua firme oposição à união religiosa. O gesto foi politicamente calculado e eficaz: a ascensão de Cumno na hierarquia acelerou-se rapidamente a partir de então. No início de 1294, após a morte do oficial Teodoro Muzalon, Andrônico II nomeou Cumno para os cargos de místico e mesazonte — conselheiro privado e ministro-chefe do império. Em 1295, recebeu ainda a chefia da chancelaria imperial, tornando-se efetivamente o homem mais poderoso da administração civil.

O próprio temperamento do imperador favorecia essa concentração de poder em seu ministro: Andrônico II tendia a se afastar dos deveres administrativos para se dedicar à oração e ao jejum, deixando Cumno gerir o cotidiano do Estado. O cronista Jorge Paquimeres descreve com clareza essa situação, que dava ao ministro uma influência praticamente sem paralelos. Não surpreende, portanto, que sua posição gerasse atritos: entrou em conflito com o deposto Patriarca Atanásio I, cujas tendências ascéticas e independentes chocavam com o estilo centralizado e humanista de Cumno. As acusações mútuas de corrupção que marcaram essa inimizade eram comuns no universo cortesão byzantino, onde cargos e propriedades se entrelaçavam com fortunas pessoais.

Em 1303, Cumno garantiu o mais importante dos laços dinásticos ao casar sua filha Irene com João Paleólogo, terceiro filho do imperador — apesar da oposição da imperatriz Irene de Monferrato. Um plano anterior de casar Irene com Aleixo II de Trebizonda havia fracassado, e o casamento com o filho imperial representou a mais alta posição social possível para sua linhagem. A felicidade política foi, contudo, de curta duração: dois anos depois, em 1305, Cumno foi demitido do cargo de ministro-chefe e substituído por Teodoro Metoquita, rival que se tornaria o centro de uma das mais intensas polêmicas intelectuais da Bizâncio medieval.

A rivalidade entre Cumno e Metoquita transcendeu a política para entrar no terreno da filosofia e da retórica. Durante a década de 1320, os dois trocaram ataques públicos em textos que sobreviveram para a posteridade: Cumno ridicularizou o estilo obscuro e confuso de seu adversário, enquanto Metoquita o atacava por seu desprezo pela medicina e sua ignorância em astronomia. Para Metoquita, a astronomia representava a forma mais elevada de conhecimento científico — e a indiferença de Cumno por ela era sinal de limitação intelectual grave. Esses debates revelam um ambiente cultural vibrante, em que questões de método filosófico e hierarquia das ciências eram matéria de disputas pessoais acaloradas.

Após um breve governo de Salonica entre 1309 e 1310, Cumno retirou-se gradualmente da vida pública. Por volta de 1326, tomou o hábito monástico com o nome de Natanael e se instalou no Mosteiro de Cristo Filantropo, fundado por sua filha Irene — que, após enviuvar e não ter filhos, havia se tornado freira sob o nome de Eulógia. Mãe e filho passaram seus últimos anos num ambiente de intensa vida intelectual: Irene mantinha uma grande biblioteca, encomendava cópias de manuscritos e correspondia-se com os maiores estudiosos de seu tempo. Cumno morreu no mosteiro em 16 de janeiro de 1327.

O legado escrito de Nicéforo Cumno é considerável: incluía peças retóricas, tratados filosóficos sobre teoria elementar, meteorologia, cosmologia e teologia, e uma extensíssima correspondência da qual 172 cartas sobreviveram. Em seus trabalhos filosóficos, mostrou-se defensor ardoroso de Aristóteles, não num sentido puramente escolástico, mas como instrumento de fundamentação racional para as doutrinas do cristianismo. O medievalista francês Rodolphe Guilland enxergava em Cumno, por seu amor apaixonado à Antiguidade e pela variedade de seu saber, um anunciador do humanismo italiano e do Renascimento ocidental — uma avaliação que situa esse burocrata-filósofo de Constantinopla como um elo inesperado entre dois mundos.

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