misterios

Joaquim Costa

Cantor de rock n'roll português

4 min01/01/2024
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Em um país onde o rock chegou filtrado pela tradição, pelo idioma e pela desconfiança das gerações anteriores, houve um homem que decidiu ignorar todas essas barreiras e simplesmente fazer o que sentia que devia ser feito. Joaquim Costa, nascido em 23 de janeiro de 1936 e falecido em 15 de fevereiro de 2008, ficou para a história como o avô do rock português, uma alcunha afetiva e merecida para alguém que plantou sementes em solo ainda não preparado para recebê-las.

Sua trajetória começou na Lisboa da década de 1950, quando o rock and roll era uma novidade explosiva que chegava do outro lado do Atlântico, carregada de energia elétrica e de uma rebeldia que soava como uma língua estrangeira na Europa mediterrânea. Foi nesse contexto que Joaquim Costa passou a atuar nas festas organizadas pelo realizador de cinema Leitão de Barros no Jardim da Estrela, nas noites de verão lisboetas. Esses eventos foram, segundo os relatos de quem estava lá, as primeiras ocasiões em que o rock foi divulgado de forma organizada em Portugal. Joaquim não era apenas um músico: era um pioneiro que abria um caminho sem mapa.

Com o dinheiro ganho nessas apresentações, ele tomou uma decisão que revelava tanto sua determinação quanto sua visão: financiou sessões de gravação no estúdio da Rádio Graça. Lá, produziu três acetatos, os discos de 78 rotações que eram o formato dominante da época, e criou as capas com suas próprias mãos. Essas capas, inéditas até o ano de sua morte, permaneceram como documentos únicos de um período em que fazer rock em Portugal era quase um ato de heresia cultural.

Uma das características mais marcantes de Joaquim Costa era sua posição inabalável sobre a língua do rock. Ele defendia que o rock tinha de ser cantado em inglês, que interpretar o estilo em português era, em suas próprias palavras, "uma palhaçada". Essa postura, que pode parecer paradoxal para um músico português, refletia uma compreensão visceral do gênero como algo inseparável de sua origem linguística e cultural. Para ele, o rock tinha uma voz, e essa voz falava inglês.

Na década de 1970, Joaquim deu um novo passo na sua trajetória ao integrar, junto com José Gouveia, o projeto chamado Duo Jotas. A dupla chegou a gravar músicas para a Rádio Renascença, embora as gravações tenham se perdido com o tempo, deixando um vazio frustrante na documentação de seu trabalho. É um destino comum para artistas que operam nas margens: a história guarda fragmentos, não a obra completa.

Em meados da década de 1990, já com mais de cinquenta anos, Joaquim Costa lançou o álbum Teenagers from Outerspace em parceria com Elsa Pires, pela editora Beekeeper. O título do disco era, em si mesmo, um manifesto: reivindicar a juventude eterna do rock, a sensação de ser um forasteiro em qualquer tempo ou lugar. O disco ganhou atenção da cena independente portuguesa e aproximou Joaquim de uma nova geração de músicos.

Em 2007, no clube Maxime de Lisboa, ele subiu ao palco ao lado de músicos dos WrayGunn, de Paulo Furtado em seu projeto solo Tiger Man e dos baixistas Pedro Pinto e Pedro Gonçalves do Dead Combo. A apresentação mostrou um homem que, mesmo na casa dos setenta anos, ainda carregava a mesma energia irreverente de quem havia eletrizando os jardins de Lisboa cinco décadas antes.

Fora dos palcos, Joaquim Costa sempre recusou viver do rock. Trabalhou como eletricista, ajudante de eletricista e distribuidor de listas telefônicas, mantendo o rock como uma paixão pura, não contaminada pelas exigências do mercado. Casou-se com Piedade Maria, com quem constituiu família, tendo filhos e netos. Essa escolha de manter a música separada da sobrevivência financeira era coerente com o espírito que lhe era atribuído por aqueles que o conheciam: o de um punk no sentido mais profundo, no do-it-yourself, na rebeldia, no anti-sistema.

Edgar Raposo, fundador da Groovie Records e vizinho de Joaquim Costa, foi uma das pessoas que melhor captou esse legado. Em suas palavras, Joaquim tinha "uma opinião muito própria e um conhecimento muito vasto sobre a história do rock and roll". Raposo iniciou a produção de um documentário sobre o músico junto com Pedro Carvalho Costa, projeto que buscava registrar para a memória cultural portuguesa a figura desse homem singular.

Joaquim Costa teve seu primeiro disco publicado em 2008, pela Groovy Records, no mesmo ano em que morreu, aos 72 anos de idade. Há uma ironia cruel, mas também uma espécie de beleza trágica nesse fato: o reconhecimento formal chegou ao mesmo tempo que a morte. Mas o que Joaquim Costa representou para a história da música portuguesa não cabe em um disco, e sim na persistência silenciosa de quem, durante décadas, cantou em inglês num país que ainda aprendia a ouvir.

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