Eugene Andrew Cernan nasceu em Chicago, Illinois, em 14 de março de 1934, e sua vida seria marcada por uma distinção que pouquíssimos seres humanos jamais carregaram: ele foi o último homem a deixar pegadas na superfície da Lua. Filho de pai de origem eslovaca e mãe de ascendência tcheca, Cernan cresceu nas cidades de Bellwood e Maywood, no estado de Illinois, onde foi escoteiro e se formou no ensino médio pela Proviso Township High School em 1952. Sua trajetória acadêmica o levou à Universidade Purdue, onde se graduou em 1956 com bacharelado em engenharia elétrica, deixando atrás de si um histórico de liderança que incluía cargos em diversas organizações estudantis e uma avaliação final de 5,1 em uma escala de 6,0.
A carreira militar de Cernan começou ainda durante os estudos em Purdue, quando aceitou uma bolsa parcial da Marinha americana que implicava serviço ativo. Essa escolha o levou ao mundo da aviação naval, onde se tornou piloto de alta performance antes de ser selecionado pela NASA como astronauta. Integrou os programas Gemini e Apollo, dois dos capítulos mais ambiciosos da história da exploração espacial humana, e ao longo de sua carreira acumulou três missões espaciais que o colocariam em circunstâncias históricas únicas.
Sua primeira viagem ao espaço ocorreu durante o programa Gemini, mas foi no programa Apollo que Cernan escreveu sua história mais duradoura. Na missão Apollo 10, em 1969, ele e sua equipe fizeram um voo de reconhecimento ao redor da Lua que serviu como ensaio geral para o pouso histórico que viria logo depois com a Apollo 11. A Apollo 10 chegou a menos de quinze quilômetros da superfície lunar, mas não pousou: tratava-se de uma simulação completa de todos os procedimentos, menos o toque final no solo. Cernan viu a Lua de perto, sentiu sua presença imponente, mas partiu sem pisar nela.
Três anos depois, em dezembro de 1972, Cernan retornou ao espaço como comandante da Apollo 17, a última missão tripulada do Programa Apollo. Ao seu lado estavam o piloto do módulo de comando Ronald Evans e o geólogo Harrison Schmitt, cujo conhecimento científico de campo era considerado fundamental para maximizar o retorno científico da missão. A Apollo 17 pousou na região de Taurus-Littrow, uma área de interesse geológico elevado escolhida pelos cientistas da NASA precisamente por sua diversidade de formações rochosas.
O que se seguiu foi uma das expedições mais produtivas já realizadas em outro mundo. Cernan e Schmitt passaram três períodos separados realizando atividades extraveiculares na superfície lunar, totalizando 22 horas fora do módulo lunar Challenger. Para efeito de comparação, Neil Armstrong e Buzz Aldrin, os primeiros homens a pisar na Lua em 1969, haviam permanecido apenas cerca de duas horas na superfície durante a Apollo 11. Cernan e Schmitt percorreram mais de 35 quilômetros com o rover lunar, o jipe elétrico desenvolvido para as últimas missões do programa, coletando amostras e registrando dados geológicos em um ritmo que superou todas as missões anteriores. Também quebraram o recorde de quantidade de material geológico trazido de volta à Terra.
Quando chegou o momento de encerrar a última caminhada lunar e subir a escada do módulo Challenger para a viagem de retorno, Cernan fez uma pausa e pronunciou as palavras que se tornariam historicamente as últimas de um ser humano falando da superfície da Lua. O gesto foi deliberado e consciente: como comandante, ele era o último a entrar no módulo após verificar que tudo estava pronto, o que significava que suas seriam as últimas pegadas humanas deixadas naquele solo cinzento. Nenhum ser humano retornou à Lua depois daquela noite de dezembro de 1972, tornando Cernan, de maneira involuntária, o detentor permanente de um título sem precedentes na história da humanidade.
Fora do contexto da Lua, Cernan ficou também conhecido por uma afirmação que demonstrou como até os astronautas podiam ser vítimas de lendas populares. Ele disse publicamente que a Muralha da China era a única construção humana visível da Lua, afirmação que circulou amplamente como fato durante décadas. Em 2003, porém, o astronauta chinês Yang Liwei, após orbitar a Terra na primeira missão espacial tripulada da China, declarou ter ficado decepcionado ao constatar que não conseguia ver a Grande Muralha do espaço, desfazendo o mito de maneira definitiva.
Cernan escreveu suas memórias no livro intitulado O Último Homem na Lua, título que captava com precisão econômica tanto seu feito quanto o peso singular que carregou pelo resto da vida. Faleceu em Houston, Texas, em 16 de janeiro de 2017, aos 82 anos, vítima de problemas de saúde. Sua morte encerrou o ciclo de uma geração de aviadores e exploradores que transformaram o impossível em rotina, e cujas façanhas permanecem como o exemplo mais extraordinário de ousadia científica e humana do século XX. O fato de que nenhum ser humano voltou à Lua após dezembro de 1972 faz com que o legado de Gene Cernan seja, paradoxalmente, tanto uma conquista quanto um lembrete permanente do quanto ainda falta para que a humanidade retome o caminho que ele ajudou a abrir.


