misterios

Colônia de Roanoke

Colónia inglesa na América do Norte

7 min01/01/2024
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Na costa leste da América do Norte, numa ilha cercada pelas águas rasas dos Outer Banks da atual Carolina do Norte, esconde-se um dos mistérios mais perturbadores da história colonial americana. No fim do século XVI, mais de cem homens, mulheres e crianças desapareceram sem deixar rastros claros, dando origem ao que os historiadores convencionaram chamar de "A Colônia Perdida" — uma história que continua gerando investigações, teorias e especulações após mais de quatro séculos.

O empreendimento começou com ambição real. Sir Walter Raleigh havia recebido da rainha Elizabeth I uma carta régia autorizando a colonização da região que os ingleses chamavam de Virgínia. Os termos eram claros e urgentes: Raleigh dispunha de dez anos para estabelecer um assentamento permanente na América do Norte ou perderia seus direitos sobre a região. Para a Coroa, o projeto tinha motivação dupla — obter riquezas do Novo Mundo e estabelecer uma base a partir da qual corsários ingleses pudessem interceptar os navios espanhóis carregados de ouro e prata vindos das colônias ibéricas.

Em 1584, Raleigh despachou uma expedição exploratória liderada por Phillip Amadas e Arthur Barlowe para identificar o local ideal para o assentamento. Os exploradores elegeram os Outer Banks da Carolina do Norte como posição estratégica, de onde seria possível atacar os espanhóis instalados mais ao sul e estabelecer contato com as tribos locais, em especial os croatanos dos pamlicos.

Na primavera de 1585, uma expedição composta exclusivamente por homens — muitos deles soldados veteranos das guerras na Irlanda — foi enviada sob o comando de Sir Richard Grenville. A tentativa começou mal: a nau-capitânia Tyger encalhou num baixio ao chegar aos Outer Banks, arruinando grande parte dos suprimentos alimentícios. A relação com os nativos também se deteriorou rapidamente. Quando a aldeia de Aquascogoc foi acusada de roubar uma xícara de prata, Grenville ordenou que fosse incendiada — uma retaliação desproporcional que plantou sementes de hostilidade que marcariam toda a permanência inglesa na região.

Em agosto de 1585, mesmo com os suprimentos comprometidos e as tensões com os indígenas crescentes, Grenville deixou Ralph Lane e 107 homens na ilha de Roanoke, prometendo retornar em abril do ano seguinte com reforços. Abril de 1586 passou sem notícias de Grenville, e a situação dos colonos se deteriorou. A postura belicosa dos ingleses — que faziam reféns e roubavam alimentos das aldeias vizinhas — havia transformado tribos inicialmente hospitaleiras em inimigos. Lane tomou conhecimento de que Wingina, cacique da tribo de Roanoke, planejava um ataque preventivo. Agindo com brutalidade calculada, o comandante levou seus homens à aldeia de Dasamonquepeuc sob pretexto de negociação e atacou os índios de surpresa, decapitando o cacique e incendiando a aldeia.

O salvamento chegou de forma inesperada em junho de 1586, com a frota de Sir Francis Drake, que fazia uma pausa após uma bem-sucedida campanha contra os espanhóis no Caribe e na Flórida. Drake ofereceu transporte e um mês de suprimentos. Uma tempestade violenta complicou o plano, arrastando o navio designado para levá-los de volta. Com um segundo navio oferecido por Drake sendo grande demais para navegar pela enseada, Lane decidiu abandonar a colônia. Em 18 de junho de 1586, o primeiro experimento colonial inglês na América terminou de forma confusa, com três homens esquecidos para trás na pressa da partida.

Quando Grenville finalmente chegou, duas semanas após a saída, encontrou a colônia deserta. Em vez de aguardar novos colonos, destacou apenas quinze homens para manter a presença inglesa e garantir os direitos de Raleigh sobre o território.

Em 1587, Raleigh planejou uma segunda e mais ambiciosa tentativa. Desta vez, o objetivo não era apenas um acampamento militar, mas uma cidade: a Cittie of Ralegh, formalmente constituída em 7 de janeiro daquele ano. Cento e quinze pessoas embarcaram, incluindo dezesseis mulheres e nove crianças — famílias com interesses reais no empreendimento, que recebiam 500 acres de terra em troca de sua participação. O grupo foi liderado por John White, artista que havia participado das expedições anteriores e documentado a região em aquarelas detalhadas.

Ao chegarem à ilha de Roanoke em 22 de julho de 1587, os colonos encontraram o forte destruído e nenhum sinal dos quinze homens deixados por Grenville. Apenas o esqueleto de um deles foi localizado. Com suprimentos escassos e a situação política na Europa exigindo atenção da Coroa inglesa, John White foi convencido — relutantemente — a retornar à Inglaterra em agosto de 1587 para buscar reforços. Antes de partir, foi comunicado do nascimento de sua neta, Virginia Dare, a primeira criança de ascendência inglesa nascida nas Américas.

A guerra com a Espanha e o ataque da Armada Invencível em 1588 consumiram todos os recursos navais ingleses. White só conseguiu retornar à Roanoke em agosto de 1590, após três anos de separação. O que encontrou foi o silêncio absoluto: a colônia havia desaparecido. As estruturas tinham sido cuidadosamente demolidas — sinal de uma partida planejada, não de pânico —, os pertences dos colonos estavam enterrados ou escondidos, e numa estaca de madeira havia a palavra "CROATOAN" entalhada, sem a cruz que White havia combinado com os colonos para indicar perigo. Num segundo poste, estavam gravadas apenas as letras "CRO".

As interpretações do que aconteceu com os colonos variam até hoje. A hipótese mais aceita pelos historiadores é a de que o grupo se integrou voluntariamente à tribo dos croatanos, possivelmente dividindo-se entre diferentes aldeias indígenas. Pesquisas arqueológicas realizadas nas últimas décadas identificaram objetos de origem europeia do final do século XVI em sítios associados aos croatanos, o que corrobora essa teoria. Outros pesquisadores não descartam que parte dos colonos possa ter sido exterminada pelos índios powhatan, que dominavam uma vasta aliança tribal na região, ou até mesmo por expedições espanholas vindas da Flórida.

Roanoke permanece o enigma fundador da história colonial americana — o começo interrompido de um projeto que, nas mãos de outras expedições, se transformaria numa nação. O nome Virginia Dare e a palavra "CROATOAN" entraram para a mitologia americana como símbolos de perda, mistério e da violência implícita no encontro entre mundos.

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