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Coco Chanel

Estilista francesa (1883–1971)

8 min01/01/2024
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No dia 19 de agosto de 1883, em um hospital de caridade administrado por freiras em Saumur, na França, nasceu a mulher que um dia transformaria para sempre a forma como as mulheres se vestem. Sua mãe, Jeanne Devolle, era lavadeira; seu pai, Albert Chanel, levava vida nômade como vendedor ambulante de roupas de trabalho, e a família habitava alojamentos precários e provisórios. O casamento de Albert com Jeanne, celebrado em 1884, teria ocorrido sob pressão familiar. Por um erro no registro civil, o nome da recém-nascida foi grafado como "Chasnel" em vez de "Chanel", grafia equivocada que ela carregou consigo até o fim da vida, pois corrigi-la legalmente exigiria revelar publicamente que havia nascido em um asilo de caridade — revelação que jamais quis fazer.

Gabrielle Bonheur Chanel — que o mundo conheceria como Coco — foi a segunda filha do casal, nascida menos de um ano depois da irmã Julia. A infância foi marcada pela privação e pela perda precoce. A morte da mãe quando Gabrielle ainda era criança alterou drasticamente os rumos da família, e as filhas acabaram entregues a instituições religiosas. O período passou sobre ela como um peso que ela jamais discutiria abertamente, preferindo ao longo da vida construir versões alternativas de sua própria origem — um hábito que acompanharia sua trajetória pública por décadas.

O que ela fez a partir desse ponto de partida tão improvável pertence ao campo das transformações culturais mais radicais do século XX. Coco Chanel fundou a maison que leva seu nome e redefiniu os padrões de elegância feminina em um momento em que a sociedade europeia também tentava redefinir o papel da mulher. No período que se seguiu à Primeira Guerra Mundial, enquanto as mulheres começavam a trabalhar fora, a dirigir automóveis e a exigir direitos políticos, o vestuário feminino ainda era dominado pelo espartilho — uma peça que moldava o corpo a um ideal artificial ao custo do desconforto físico. Chanel propôs algo radicalmente diferente: roupas simples, confortáveis, fáceis de vestir e retirar, visualmente sofisticadas sem serem opressivas. Era moda para mulheres que se moviam pelo mundo, não para mulheres que posavam nele.

O estilo que ela popularizou era ao mesmo tempo esportivo e elegante, informal sem ser descuidado. Utilizou tecidos como o jersey, até então reservados à roupa masculina e ao vestuário de trabalho, para criar peças femininas que combinavam praticidade e graça. A silhueta que propôs — solta no corpo, sem cintura marcada por coerção externa — tornou-se o padrão da modernidade. A revista Time a incluiu na lista das cem pessoas mais influentes do século XX, sendo a única estilista a figurar nessa seleção, ao lado de estadistas, cientistas e pensadores.

Chanel expandiu seu império para além das roupas de alta costura. Desenvolveu joias que misturavam pedras falsas e verdadeiras de forma deliberada, desafiando a lógica do mercado que separava rigidamente os dois tipos. Criou bolsas que se tornaram ícones de status reconhecidos globalmente, entre elas a 2.55, batizada pela data de sua criação. E lançou o Chanel Nº 5, perfume que se tornaria um dos produtos de luxo mais famosos da história, símbolo de sofisticação que transcendeu gerações e fronteiras culturais. O monograma com as iniciais CC entrelaçadas, criado por ela própria na década de 1920, manteve-se em uso ininterrupto e tornou-se uma das marcas visuais mais reconhecíveis do planeta.

Com o início da Segunda Guerra Mundial em 1939, Chanel fechou sua maison. Permaneceu em Paris durante a ocupação nazista da França, residindo no Hotel Ritz, onde alojamentos de luxo abrigavam a elite alemã que administrava a cidade ocupada. Esse período de sua vida foi envolto em controvérsia crescente. Ela manteve um relacionamento com Hans Günther von Dincklage, diplomata alemão de família nobre, ligação que naturalmente levantou questões sobre sua postura diante da ocupação. Ao final do conflito, Chanel foi interrogada sobre seus laços com Dincklage, mas não chegou a ser formalmente acusada de colaboracionismo. Relatos históricos sugerem que a intervenção do primeiro-ministro britânico Winston Churchill, a quem ela conhecia pessoalmente, pode ter contribuído para evitar um processo mais sério.

Em 2011, o escritor e jornalista Hal Vaughan publicou uma obra baseada em documentos até então confidenciais das agências de inteligência americana, britânica e francesa, demonstrando que Chanel havia colaborado ativamente com o Sicherheitsdienst, o serviço de inteligência da SS nazista. Entre os episódios revelados constava um plano de 1943 pelo qual Chanel seria enviada a Churchill como emissária de uma proposta de paz da SS para encerrar a guerra no Ocidente. A revelação lançou uma sombra definitiva sobre a imagem pública da estilista, embora sua maison e seu legado criativo não tenham sido substancialmente abalados.

Após a guerra, Chanel refugiou-se na Suíça, onde viveu por anos afastada do mundo da moda. Retornou a Paris apenas em 1954, com mais de setenta anos, para reabrir a casa de moda e lançar novas coleções. O retorno foi inicialmente recebido com ceticismo pela imprensa francesa, mas o sucesso veio rapidamente, especialmente entre o público americano. Ela continuou trabalhando até o fim da vida, tratando o ateliê como um espaço insubstituível. Gabrielle Bonheur Chanel morreu em Paris em 10 de janeiro de 1971. A mulher que nasceu em um hospital de caridade, filha de uma lavadeira e de um vendedor ambulante, morreu como o nome mais reconhecido da moda mundial — e como uma das figuras mais contraditórias e fascinantes do século XX.

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