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Civilização do Vale do Indo

Civilização da Idade do Bronze no sul da Ásia

7 min01/01/2024
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No noroeste do subcontinente sul-asiático, há mais de cinco mil anos, emergiu uma das civilizações mais enigmáticas e fascinantes da antiguidade. A Civilização do Vale do Indo, também conhecida como Civilização Harapeana, floresceu entre 3.300 e 1.300 antes da era cristã, atingindo seu auge entre 2.600 e 1.900 a.C., e foi contemporânea do Antigo Egito e da Mesopotâmia. Das três primeiras grandes civilizações humanas dessas regiões, foi a que se espalhou por maior área, com seu núcleo urbano estendendo-se do nordeste do Afeganistão, através de grande parte do Paquistão, até o noroeste e oeste da Índia.

O que distingue imediatamente essa civilização de suas contemporâneas é o nível extraordinário de seu planejamento urbano. As grandes cidades de Moenjodaro e Harapa, que muito provavelmente chegaram a ter entre 30 mil e 60 mil habitantes cada, foram construídas segundo um plano racional que impressiona até os urbanistas modernos. As ruas eram largas e traçadas em ângulos retos, formando uma grade ortogonal. As casas eram construídas com tijolos de barro cozido de tamanho padronizado, um sinal de centralização administrativa e de produção manufatureira em escala. O sistema de drenagem e esgoto era provavelmente o mais avançado do mundo antigo: cada casa tinha sua própria privada e conectava-se a canais de drenagem cobertos que corriam sob as ruas, levando os dejetos para fora das áreas habitadas.

A arqueologia dessa civilização começou a se revelar ao mundo somente no início do século XX. As escavações de Harapa, no atual Paquistão, iniciadas nas décadas de 1920, e logo depois as de Moenjodaro, surpreenderam os arqueólogos britânicos que trabalhavam na Índia colonial com a sofisticação e a extensão de uma civilização que o Ocidente desconhecia completamente. Em 2002, mais de mil cidades e assentamentos harapeanos haviam sido catalogados, embora menos de cem tivessem sido escavados. Os cinco principais sítios urbanos identificados são Harapa, Moenjodaro, Dolavira, Ganueriwala no Deserto de Cholistão e Raquigari, este último localizado no estado de Hariana, na Índia.

A sofisticação técnica da civilização era notável. Além da arquitetura, os artesãos produziram trabalhos em cornalina, entalhes em selos de esteatita com figuras de animais e inscrições hieroglíficas, e metalurgia em cobre, bronze, chumbo e estanho. Os selos, pequenos objetos quadrados com motivos gravados em baixo-relevo, são particularmente intrigantes: neles aparecem figuras de animais como o unicórnio, o elefante e o rinoceronte, além de inscrições ainda não decifradas. Esses selos provavelmente serviam como marcas de identidade ou propriedade em transações comerciais, indicando uma economia de mercado desenvolvida.

A questão da escrita é um dos maiores enigmas que a civilização legou aos estudiosos modernos. Existem milhares de inscrições em selos e outros artefatos, mas o sistema de escrita harapeano continua, até hoje, sem decifração. Sem um "pedra de Roseta" que permita a comparação com uma língua conhecida, os pesquisadores não chegaram a consenso sobre a natureza do sistema: se é logográfico, silábico ou de algum tipo misto. A identidade do próprio idioma que a escrita representava também é incerta; uma relação com a família linguística dravídica é defendida por alguns estudiosos, mas permanece controversa.

A extensão geográfica da civilização impressiona tanto quanto sua sofisticação. Assentamentos harapeanos foram encontrados ao longo da costa do Oceano Índico, do Baluchistão Ocidental até o estado indiano de Guzerate. Um sítio foi localizado no rio Oxo, no atual Afeganistão do norte, e outros foram identificados a apenas 28 quilômetros de Nova Délhi. O assentamento mais ao sul encontrado até hoje fica em Maharashtra. Essa dispersão geográfica enorme, sobre habitats muito diferentes entre si, revela uma civilização com redes comerciais e de comunicação excepcionalmente bem desenvolvidas.

O declínio da civilização, entre aproximadamente 1.900 e 1.300 a.C., foi gradual e provavelmente não teve uma causa única. A hipótese mais aceita atualmente aponta para mudanças climáticas e hidrológicas como fatores determinantes. A gradual seca do solo da região, associada à alteração dos cursos dos rios que alimentavam as planícies férteis, pode ter reduzido a capacidade produtiva da agricultura irrigada e levado à migração da população em direção ao leste, para as planícies do rio Ganges. As cidades foram sendo progressivamente abandonadas, sem os sinais de destruição violenta que caracterizariam uma conquista militar.

O legado da Civilização do Vale do Indo é paradoxalmente invisível em sua grandiosidade. Ao contrário dos egípcios, que deixaram pirâmides e textos decifráveis, ou dos mesopotâmicos, cujas tábuas de argila revelaram sua literatura e legislação, os harapeanos existiram por milênios numa relativa obscuridade histórica. Mas os arqueólogos, pá a pá, continuam revelando uma civilização que demonstrou ser possível construir cidades planejadas, redes comerciais intercontinentais e sistemas sanitários avançados há cinco mil anos, às margens de rios que hoje correm pelo Paquistão e pela Índia.

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