Em uma manhã de janeiro de 2018, o corpo de um jovem de 19 anos foi encontrado enterrado em um parque do Condado de Orange, na Califórnia. O nome do jovem era Blaze Bernstein, estudante universitário, filho amado de uma família comum do subúrbio californiano. O que parecia no início um caso de desaparecimento trágico revelou-se, nos dias seguintes, um crime de ódio enraizado nos cantos mais sombrios do extremismo neonazista norte-americano — e um prenúncio perturbador de uma violência que já tinha mais vítimas do que se imaginava.
Blaze Bernstein nasceu em 27 de abril de 1998 no Condado de Orange. Seu pai, Gideon Bernstein, era sócio de uma empresa financeira chamada Leisure Capital Management; sua mãe, Jeanne Pepper, havia sido advogada e abandonara a carreira jurídica em 2000 para se dedicar integralmente à criação dos três filhos do casal. Blaze concluiu o ensino médio na Orange County School of the Arts, escola conhecida por fomentar talentos artísticos e criativos, e ingressou como aluno de graduação na prestigiosa Universidade da Pensilvânia. Era visivelmente gay e judeu — identidades que assumia abertamente, sem hesitação.
No início de janeiro de 2018, Blaze retornou a Lake Forest, sua cidade natal, para passar as férias com a família. Era uma pausa breve entre semestres, o tipo de visita corriqueira que universitários fazem. Mas em determinado momento saiu e não voltou. A família registrou seu desaparecimento, e uma busca que durou oito dias foi desencadeada na região. No dia 10 de janeiro de 2018, o corpo foi encontrado em um parque local. A perícia revelou algo perturbador: Blaze havia sido esfaqueado dezenove vezes, um nível de violência que apontava para um ataque premeditado, marcado por ódio intenso, e não para um crime ocasional.
Dois dias após a localização do corpo, a polícia prendeu Samuel Woodward, um jovem de 20 anos que havia estudado na mesma escola que Blaze. Woodward não era apenas um ex-colega. As investigações revelaram que ele era membro ativo da Atomwaffen Division, organização terrorista neonazista que naquele período havia acumulado um rastro de sangue alarmante: o assassinato de Blaze Bernstein integrava uma série de cinco mortes ligadas ao grupo em um período de apenas oito meses, entre 2017 e o início de 2018. A Atomwaffen operava em células descentralizadas, pregava a aceleração do colapso da sociedade e glorificava tanto figuras nazistas quanto o terrorismo doméstico. O fato de que um de seus membros havia assassinado um jovem abertamente gay e judeu não era coincidência.
O juiz responsável pelo caso formalizou inicialmente contra Woodward as acusações de assassinato e porte ilegal de arma letal. Em agosto de 2018, duas acusações adicionais relacionadas a crimes de ódio foram incluídas, em razão da orientação sexual da vítima. As evidências de DNA vincularam Woodward diretamente à cena do crime, tornando sua presença no local inegável. A defesa, por sua vez, adotou uma estratégia que buscava mitigar a responsabilidade criminal do réu: argumentou que ele sofria de síndrome de Asperger e que enfrentava conflitos internos relacionados à própria identidade sexual, sugerindo que a violência poderia ter raízes em uma turbulência psicológica pessoal. Woodward declarou-se inocente de todas as acusações.
O processo judicial foi marcado por uma sequência extenuante de adiamentos. A pandemia de COVID-19 interrompeu o fluxo normal dos tribunais californianos e Woodward permaneceu sob custódia sem julgamento por anos. O início do julgamento, provisoriamente marcado para 2021, foi empurrado várias vezes até ser fixado para 15 de julho de 2022. Nessa data, porém, o processo foi temporariamente suspenso após o advogado de defesa levantar dúvidas sobre a capacidade mental do réu de ser submetido a julgamento. No final de outubro de 2022, especialistas em saúde mental avaliaram Woodward como competente para ser julgado, e uma audiência pré-julgamento foi agendada para janeiro de 2023. A fiança havia sido integralmente negada pelo juiz em novembro de 2018, de modo que Woodward permaneceu detido durante todo esse período.
O caso de Blaze Bernstein ganhou repercussão nacional nos Estados Unidos muito além do que seria comum em um crime de homicídio. Tornou-se um foco de atenção sobre o crescimento de grupos neonazistas e o fenômeno do terrorismo doméstico de extrema direita, que as autoridades federais americanas vinham monitorando com preocupação crescente. A Atomwaffen Division seria posteriormente investigada, e alguns de seus membros enfrentariam acusações federais em estados diferentes. A morte de Blaze funcionou como um sinal de alerta: o extremismo que circulava em fóruns obscuros da internet havia cruzado a fronteira do mundo virtual para as ruas de bairros residenciais comuns.
Para a família Bernstein, os anos de espera pelo julgamento representaram uma ferida que o tempo não fechava. O nome de Blaze foi mantido vivo por iniciativas em memória da vítima, e o caso permanece uma lembrança dolorosa de que a violência motivada por ódio não é um fenômeno distante — ela pode aparecer na porta da casa de qualquer pessoa.
