No início de outubro de 1907, nasceu em Glasgow um menino que, meio século depois, receberia o Prêmio Nobel de Química — não pelo tipo de descoberta espetacular que ocupa manchetes, mas pela paciência metódica de revelar a arquitetura molecular da própria vida. Alexander Robertus Todd cresceu para se tornar um dos químicos mais influentes do Reino Unido no século XX, um pesquisador cuja obra tocou a fundo nas fundações da bioquímica moderna, especialmente na compreensão dos blocos com os quais o DNA e o RNA são construídos.
A trajetória acadêmica de Todd passou por diversas instituições antes de se fixar nos lugares onde produziria seus trabalhos mais significativos. Integrou o corpo docente da Universidade de Edinburgh entre 1934 e 1936, antes de assumir a posição de Reader em Bioquímica na Universidade de Londres. Em 1938, passou seis meses como professor visitante no California Institute of Technology, um dos centros de pesquisa mais avançados do mundo, recebendo ao final uma oferta de cargo permanente na instituição americana. Todd recusou a proposta. Naquele mesmo ano, assumiu a Sir Samuel Hall Chair of Chemistry e a direção dos laboratórios de química da Universidade de Manchester, onde deu início ao trabalho sistemático sobre os nucleosídeos — os compostos orgânicos que constituem as unidades básicas dos ácidos nucleicos.
Em 1944, foi nomeado para a cátedra de Química de 1702 na Universidade de Cambridge, uma das cátedras mais antigas e prestigiosas de toda a tradição universitária britânica. Permaneceu em Cambridge até sua aposentadoria em 1971, transformando os laboratórios da universidade em um centro internacional de pesquisa em química orgânica e bioquímica. No intervalo, realizou estadias como professor visitante na Universidade de Chicago no outono de 1948 e na Universidade de Sydney em 1950, mantendo laços com a comunidade científica internacional.
O trabalho de Todd com nucleosídeos e nucleotídeos era, em essência, um projeto de engenharia inversa da química da vida. Para entender como o DNA e o RNA funcionam, é preciso entender como são feitos — e essa compreensão passa necessariamente pela elucidação da estrutura e das propriedades dos componentes que os formam. Todd dedicou anos a esse projeto com precisão cirúrgica. Em 1949, alcançou um de seus resultados mais importantes: a síntese do trifosfato de adenosina, o ATP, e do dinucleotídeo de flavina adenina, o FAD. O ATP é a molécula central do metabolismo celular, o composto que armazena e transfere energia em praticamente todo organismo vivo. A síntese dessas moléculas em laboratório foi um marco que abriu novas possibilidades para a investigação dos processos energéticos das células.
Além do ATP e do FAD, Todd se debruçou sobre uma variedade notável de substâncias biologicamente relevantes. Estudou a estrutura e a síntese da vitamina B1 e da vitamina E, pesquisou as antocianinas — os pigmentos responsáveis pelas cores de flores e frutos —, e investigou alcaloides presentes no haxixe e na maconha, trabalho que combinava interesse farmacológico e químico. Em 1955, participou dos esforços para elucidar a estrutura da vitamina B12, composto de extraordinária complexidade molecular. A determinação definitiva da fórmula da B12 coube a Dorothy Hodgkin e sua equipe, mas Todd foi parte do esforço colaborativo que tornou esse avanço possível.
O reconhecimento máximo chegou em 1957, quando Todd foi laureado com o Prêmio Nobel de Química pelas pesquisas sobre a estrutura e síntese de nucleotídeos, nucleosídeos e coenzimas — exatamente o núcleo do trabalho que havia desenvolvido ao longo de duas décadas. O Nobel não foi uma surpresa para a comunidade científica; era a consagração de um percurso que havia acumulado ao longo dos anos mais de quarenta títulos honorários de universidades ao redor do mundo.
A carreira de Todd não se limitava à bancada do laboratório. Foi eleito Fellow da Royal Society em 1942, tendo ascendido à presidência da instituição entre 1975 e 1980 — um cargo que reúne a liderança científica britânica em seu mais alto nível. Integrou o Christ's College de Cambridge como Fellow desde 1944 e exerceu o cargo de Mestre entre 1963 e 1978. Em 1975, tornou-se chanceler da University of Strathclyde, cargo que desempenhou com o mesmo senso de responsabilidade institucional que marcou toda a sua trajetória. Em 1977, recebeu a distinção de membro da Ordem do Mérito, e em 1981 tornou-se membro fundador do Conselho Cultural Mundial. Entre 1978 e 1986, atuou como professor visitante no Hatfield Polytechnic.
Alexander Todd faleceu em Cambridge em 10 de janeiro de 1997, vítima de um ataque cardíaco, aos 89 anos. Deixou para trás uma obra que continua relevante para a bioquímica moderna e uma geração de pesquisadores formados sob sua influência. Sua contribuição mais duradoura talvez seja justamente aquela que passou mais despercebida ao grande público: ao revelar como são construídas as peças com as quais a vida registra, copia e transmite informação genética, Todd ajudou a estabelecer as bases moleculares sobre as quais toda a biologia moderna foi erguida.

